A (OUTRA) ENGENHARIA AO SERVIÇO DO RIO O CASO DA RIBEIRA DA AGUIEIRA

A Casa dos Rios e Laboratório de Rios+, um projeto de reabilitação fluvial da Ribeira da Aguieira, promovido pelo Município de Águeda e a Junta de Freguesia de Valongo do Vouga, funcionam como um laboratório vivo com recurso a técnicas de engenharia natural.

A Casa dos Rios é, há cerca de cinco anos, um projeto de reabilitação fluvial da Ribeira da Aguieira, num trabalho colaborativo entre o Município de Águeda e a Junta de Freguesia de Valongo do Vouga. O objetivo é dar uma nova vida às margens e ao leito do Rio, tendo por base o recurso a técnicas de engenharia natural, baseadas no conceito de “Natural Based Solutions e Natural Water Retention Measures”.

No decurso do processo de reabilitação, procedeu-se ao reperfilamento das margens da Ribeira da Aguieira, à implementação de estacaria viva para estabilização e à plantação de várias espécies autóctones.

Pedro Teiga, responsável pelo projeto, explica a importância da reabilitação da vegetação nas margens do rio. Além do papel na dinamização da biodiversidade local — podendo uma árvore constituir habitat para inúmeras espécies — destaca-se a função das raízes na estruturação do solo, a chamada “armação”, crucial em momentos de cheias. As raízes contribuem ainda para a oxigenação e fertilização do solo envolvente.

No conjunto das soluções técnicas estudadas e implementadas, destaca-se o Enrocamento Vivo, obra de defesa longitudinal contra a erosão das margens fluviais, que consiste na colocação de pedras de grandes dimensões. Nos interstícios podem ser colocadas estacas vivas, por exemplo, de salgueiro.

O Entrançado Vivo consiste na recolha de estacas ou ramagens de espécies com capacidade de propagação vegetativa e na sua aplicação no solo, promovendo um efeito estabilizador em profundidade.

Outra solução é, por exemplo, a Paliçada, estrutura composta por troncos de eucalipto tratado, colocados verticalmente e parcialmente enterrados no solo, garantindo estabilidade à estrutura de forma que cerca de 50% do seu comprimento fique sob o solo.

Já o Muro Vivo é uma estrutura retangular ou quadrangular, feita com troncos de madeira tratada colocados perpendicularmente entre si. Nos espaços intermédios, entre os troncos, são colocadas estacas de arbustos autóctones e/ou plantas em torrão.

Exemplo demostrativo de um Muro Vivo localizado no terreno para fins educacionais.

A Grade Viva é constituída por estruturas de madeira formadas por troncos dispostos perpendicularmente e fixos ao solo por estacas cravadas. Após a montagem, são plantadas estacas vivas ou plantas, sendo a estrutura preenchida com terra local. É utilizada na consolidação superficial de taludes até 20 metros de altura e com declives até 55%, estabilizando camadas superficiais do solo até cerca de 30 a 40 centímetros de profundidade. Pode ser simples ou dupla, sendo a distância entre níveis definida em função da estabilidade do solo.

O Biorolo é um cilindro flexível feito de fibras de coco reforçadas com rede de polipropileno. É utilizado na proteção de taludes e cursos de água para controlo da erosão, retenção de sedimentos e redução da velocidade do escoamento. Pode também apoiar a revegetação de áreas degradadas e ser usado na absorção de óleos, em emergências.

A Faxina é composta por feixes de ramos vivos e mortos, atados com corda ou arame e fixados ao solo com troncos de madeira. São colocadas em contacto direto com o solo húmido e cobertas com terra para evitar a evaporação, favorecendo o enraizamento. Utilizam-se ramos lenhosos, flexíveis e com elevada capacidade de enraizamento, sendo o sol e a água fatores essenciais para o seu desenvolvimento e eficácia na proteção de margens.

O Travessão é uma estrutura construída transversalmente ao leito de um rio, geralmente em pedra, betão ou madeira, com a função de regular o escoamento da água. Segundo Pedro Teiga, contribui para melhorar a qualidade da água, promovendo o aumento da oxigenação.

Travessão – exemplo da técnica utilizada na Ribeira da Aguieira.

Complementam estas intervenções a sementeira, que assegura rápida cobertura vegetal do solo, com misturas de espécies de diferentes características radiculares; a modelação das margens, ajustando a forma e inclinação dos taludes, para melhorar o funcionamento hidráulico; e a plantação, com destaque para o salgueiro, uma das espécies mais utilizadas na reabilitação deste troço da Ribeira.

Um dos aspetos mais relevantes do projeto é o reaproveitamento de materiais provenientes das limpezas periódicas do leito – ramos, troncos e folhas – utilizados na construção das estruturas naturais. Esta prática reduz desperdícios e reforça a lógica de economia circular aplicada ao ecossistema.

Segundo Pedro Teiga, o projeto, relevante para população local e a freguesia de Valongo do Vouga, destaca a variedade de métodos que podem ser utilizados para a reabilitação fluvial, através de técnicas de engenharia natural. Estes métodos enriquecem a história do rio e demonstram como respeitando o perfil local e atuando de forma responsável e flexível, é possível dar tempo e espaço para que este acompanhe várias gerações.

Afonso Almeida (Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra, Politécnico de Coimbra) , Letícia Lopes (Escola Superior de Saúde de Lisboa, Politécnico de Lisboa)