Carrazeda de Ansiães reforça proteção do tartaranhão-caçador

Carrazeda de Ansiães reforçou a proteção do tartaranhão-caçador, através da assinatura de um protocolo com a Palombar – Associação de Conservação da Natureza, no âmbito do projeto LIFE “SOS Pygargus”. A iniciativa surge após a identificação de vários núcleos reprodutores no concelho, alguns deles ameaçados por incêndios e pela degradação do habitat, e prevê ações de monitorização, sensibilização e educação ambiental, contribuindo para a conservação da biodiversidade local e para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

A proteção do tartaranhão-caçador tornou-se uma prioridade ambiental em Carrazeda de Ansiães após a identificação de vários núcleos reprodutores da espécie no concelho, alguns dos quais ameaçados por incêndios florestais e pela degradação do habitat. Classificada como Em Perigo em Portugal, esta ave de rapina migratória enfrenta um declínio acentuado, sobretudo em zonas de matos, o que levou o município a assinar um protocolo com a Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural, no âmbito do projeto LIFE “SOS Pygargus”, que decorre até 2030 e envolve Portugal e Espanha.

Fonte: https://www.cm-carrazedadeansiaes.pt/noticia-79/municipio-de-carrazeda-de-ansiaes-e-palombar-assinam-protocolo-que-reforca-conservacao-do-tartaranhao-cacador

Esta iniciativa contribui diretamente para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), nomeadamente o ODS 15 – Vida Terrestre e o ODS 17 – Parcerias para a Implementação dos Objetivos.

Para compreender o impacto deste protocolo e o trabalho desenvolvido no terreno, entrevistámos o Engenheiro Tito, técnico do município e responsável pela monitorização local da espécie. Segundo nos explica, o interesse do concelho pelo tartaranhão-caçador começou em 2021, quando o técnico participou numa formação de observação de aves promovida pelo Parque Natural Regional do Vale do Tua, dirigida a agentes do território ligados ao turismo. Essa formação coincidiu, pouco depois, com o Censo Nacional do Tartaranhão-Caçador, realizado em 2022 e 2023, período durante o qual iniciou a monitorização da espécie em Carrazeda de Ansiães.

Nesse contexto foram identificados novos núcleos reprodutores, para além dos já conhecidos, revelando a importância do concelho para a nidificação da espécie. Inicialmente foram registados quatro núcleos, mas atualmente apenas três se mantêm ativos, num total de sete casais reprodutores. Um dos núcleos perdeu-se devido aos incêndios florestais, evidenciando a fragilidade do habitat e a necessidade de medidas preventivas.

O tartaranhão-caçador nidifica no solo, o que o torna particularmente vulnerável à destruição dos ninhos, à predação e à perturbação humana, fatores que contribuem para o declínio da espécie e reforçam a urgência da sua conservação, em linha com o ODS 15.

Ninho construído no meio natural, cuja proteção no campo não foi possível. O ovo foi resgatado no âmbito da campanha “Salvar o tartaranhão-caçador”. Fotografia Palombar.

Do ponto de vista ecológico, esta ave desempenha um papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas. Alimenta-se essencialmente de ratos, lagartos, gafanhotos e pequenos mamíferos, ajudando no controlo natural de pragas, nomeadamente em vinhas e olivais.

Em Carrazeda de Ansiães, a espécie prefere zonas de serra e matos, como giestas e tojos, ao contrário de regiões cerealíferas como o Planalto Mirandês ou o Alentejo. No entanto, estes habitats têm sido cada vez mais afetados por incêndios florestais, uma ameaça associada às alterações climáticas, enquadrando-se diretamente no ODS 13.

Com a assinatura do protocolo, o município assumiu um papel central na monitorização da espécie ao longo de todo o ciclo reprodutivo. Entre março e o final do verão, é acompanhado todo o processo, desde a chegada das aves, a construção dos ninhos e a identificação dos casais, até à contagem das crias que conseguem sair do ninho com sucesso.

Juvenil marcado com GPS pelo biólogo Carlos Pacheco do BIOPOLIS-CIBIO. Fotografia Filippo Guidantoni/Palombar.

Paralelamente, a Palombar, enquanto entidade coordenadora do projeto LIFE SOS Pygargus, desloca-se ao território para proceder à anilhagem das aves e à colocação de dispositivos GPS nas crias. Esta tecnologia permite acompanhar os movimentos migratórios e compreender melhor os riscos enfrentados fora das áreas de nidificação. Um dos juvenis monitorizados chegou a Espanha, onde acabou por ser predado, informação que só foi possível obter graças aos dados recolhidos pelo GPS.

Para além dos fatores naturais, a ação humana representa um dos maiores desafios à conservação da espécie. Segundo o Eng.º Tito, a falta de conhecimento da população leva, por vezes, à destruição involuntária dos ninhos durante limpezas de terrenos ou outras intervenções agrícolas. Houve situações em que núcleos reprodutores deixaram de existir precisamente devido a estas ações, realizadas sem consciência da presença da espécie. Este cenário demonstra a importância da sensibilização e da educação ambiental como ferramentas essenciais para a conservação.

Nesse sentido, o protocolo prevê ações de esclarecimento junto das comunidades locais, explicando o funcionamento da espécie, o que come e a sua importância para a agricultura e para o equilíbrio dos ecossistemas. O município tem também apostado na educação ambiental nas escolas, através de projetos já desenvolvidos com o Chasco-preto, uma espécie ainda mais ameaçada. Para o próximo ano letivo, está prevista a inclusão do tartaranhão-caçador nestas atividades educativas, com sessões de formação, identificação da espécie e saídas de campo, promovendo uma maior ligação dos jovens ao território e à conservação da natureza. Estas iniciativas reforçam a cooperação entre entidades e a participação cívica, contribuindo para o ODS 17.

Embora o protocolo seja recente e ainda não existam dados suficientes para avaliar a evolução da população a longo prazo, a monitorização já permite identificar tendências preocupantes a nível regional. Áreas próximas, como Alijó e Murça, foram severamente afetadas por incêndios, o que poderá levar a uma diminuição do número de casais reprodutores nessas áreas nos próximos anos. Até 2030, o objetivo do Município de Carrazeda de Ansiães passa por aumentar a presença do tartaranhão-caçador no concelho, preservar os núcleos existentes e implementar medidas de gestão do território, como a criação de faixas de contenção, que reduzam o risco de novos incêndios.

O protocolo estabelecido entre o Município de Carrazeda de Ansiães e a Palombar representa um passo decisivo na proteção de uma das aves mais ameaçadas da Península Ibérica. O trabalho desenvolvido no terreno demonstra que a conservação da biodiversidade depende da articulação entre ciência, decisão política, educação ambiental e envolvimento da comunidade. Ao alinhar-se com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, este projeto mostra que a ação local pode ter um impacto real e duradouro na proteção da natureza e na construção de um futuro mais sustentável.

Mariana Fonseca Flor / Rita Pinto Carvalho