Fast Fashion nos Corredores

Numa era onde a sustentabilidade domina o discurso público, um Vox Pop a estudantes de ensino superior revela o que pesa na balança dos jovens quando renovam o guarda-roupa: o planeta, o estilo ou o preço.

O cenário é alarmante, segundo o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUMA), a indústria da moda é responsável por cerca de 8% a 10% das emissões globais de carbono, posicionando-se como a segunda maior consumidora de água a nível mundial. Vivemos numa conjuntura onde a interdependência entre a saúde humana e a planetária é inegável. O exemplo mais flagrante reside na omnipresença dos microplásticos, provenientes das fibras sintéticas, que, após invadirem os oceanos, infiltraram-se silenciosamente na nossa própria cadeia alimentar. Mas será que esta urgência ecológica ecoa na mente dos jovens quando entram numa loja?

Os testemunhos recolhidos traçam um panorama claro, as marcas de fast fashion (como Zara, Stradivarius e Bershka) e os gigantes do e-commerce (como Shein e Temu) exercem um domínio quase absoluto sobre o vestuário deste público-alvo. No momento da aquisição, a pegada ecológica da peça é raramente ponderada, sendo suplantada pelo binómio estilo e custo. A transparência de um dos inquiridos resume a tendência geral, «normalmente o preço é o fator mais importante, não penso muito no impacto ambiental». Constrangidos pelo orçamento, a necessidade de poupança e a conveniência dos preços baixos acabam por ditar as regras, deixando a sustentabilidade para segundo plano e ofuscando alternativas mais ecológicas.

Curiosamente, o dilema não se esgota nas restrições financeiras. As exigências do quotidiano profissional exercem também uma influência preponderante. Um dos entrevistados destacou que a sua decisão de compra é guiada pelas «condições de trabalho», procurando vestuário que cumpra requisitos práticos e específicos. Este testemunho evidencia que, frequentemente, a sustentabilidade é desprezada não por falta de literacia ambiental, mas por um pragmatismo imposto pelas obrigações e códigos de vestuário da vida ativa.

Apesar do consumo acelerado, esta auscultação aponta para uma mudança de paradigma, o estigma associado à roupa em segunda mão encontra-se praticamente extinto. A esmagadora maioria dos jovens mostrou-se aberta a usar peças em segunda mão, «quando a roupa deixa de servir a alguém não quer dizer que perdeu a utilidade (…) acho ‘bué fixe’ esta cena de cada vez mais haver lojas de roupa em 2ª mão». Muitos já compram em plataformas de revenda como a Vinted ou feiras locais que surgem não apenas como alternativas verdes, mas como oportunidades para adquirir peças exclusivas que quebram a uniformidade das grandes cadeias. Adicionalmente, valoriza-se a economia circular ao dar «uma nova vida a roupas de familiares e amigos». O principal obstáculo a uma adesão massiva reside, contudo, na dificuldade em encontrar peças que se ajustem na perfeição ao gosto individual.

Esta breve recolha oferece um retrato honesto: a transição para um modelo de moda sustentável não é imediata. A consciencialização existe, mas colide com as barreiras orçamentais e a procura por conforto. Ainda assim, a normalização e o entusiasmo crescente em torno do mercado de segunda mão provam que a mudança está a acontecer. Percebe-se que mitigar o impacto destas ações exige tempo, mas dar uma nova vida a uma peça de roupa é, indubitavelmente, um excelente primeiro passo.


Catarina Faneca