Localizada no concelho de Águeda, no distrito de Aveiro, a Lagoa da Pateira alonga-se pelos municípios de Águeda e Oliveira do Bairro. Segundo a chefe de Divisão da Sustentabilidade, Turismo e Ação Climática da Câmara Municipal de Águeda, Célia Laranjeira é a maior lagoa natural da Península Ibérica e uma das principais zonas húmidas da região Centro. A sua posição geográfica faz dela um elemento natural partilhado e estruturante para os territórios que a envolvem.
O nome “Pateira” está associado à histórica abundância de patos que habitavam a lagoa, refletindo a forte presença de aves aquáticas (cerca de 160 espécies) que ainda hoje caracterizam a paisagem. Esta ligação entre toponímia e biodiversidade evidencia a relação antiga entre a comunidade local e o meio natural.
Do ponto de vista ecológico, a lagoa constitui um ecossistema de água doce, alimentado maioritariamente pelo Rio Cértima, que assegura o fornecimento de nutrientes e sedimentos essenciais ao equilíbrio ambiental. A interação entre água, vegetação aquática e fauna cria um sistema dinâmico e diversificado, fundamental para a conservação da biodiversidade e para a regulação hídrica da região. Historicamente, a lagoa teve grande importância económica e social. Serviu como via de transporte entre freguesias, facilitando o comércio e o apoio à agricultura.

Jacinto-de-água retirado da lagoa da Pateira de Fermentelos.
Apesar da sua riqueza natural, a Pateira enfrenta desafios ambientais significativos. Um dos principais problemas é a presença de espécies invasoras, como o jacinto-de-água e o lagostim-vermelho-do-Louisiana. O jacinto-de-água é uma planta aquática. Segundo Célia Laranjeira, reproduz-se sobretudo de forma vegetativa, através da fragmentação e multiplicação dos caules flutuantes. Cada fragmento pode dar origem a uma nova planta, permitindo que se espalhe rapidamente pela superfície da lagoa. Acrescenta que esta reprodução acelerada origina extensos tapetes vegetais que bloqueiam a entrada de luz, reduzem o oxigénio na água e dificultam a circulação, afetando peixes e outras espécies nativas. O lagostim, por sua vez, altera o equilíbrio ecológico ao competir com espécies autóctones e modificar o fundo da lagoa. A proliferação destas espécies exige controlo contínuo e estratégias de gestão ambiental.
Para combater a expansão do jacinto-de-água e manter o equilíbrio do ecossistema, são utilizadas ceifeiras aquáticas, embarcações especializadas, na remoção de plantas invasoras e resíduos flutuantes. Estas intervenções são essenciais para preservar a biodiversidade e garantir a qualidade da água.
Com o aparecimento destas espécies invasoras, algumas espécies autóctones foram progressivamente afetadas como os moliços, plantas aquáticas recolhidas da lagoa que tiveram grande importância económica no passado. Segundo Célia Laranjeira, “O moliço era utilizado para a fertilização dos campos agrícolas, e como tal era algo muito importante. Era o fertilizante natural destes campos. Antigamente, havia uma competição de moliço porque era algo que era muito aguerrido entre diversas freguesias.”
As infraestruturas envolventes têm sido adaptadas às novas realidades climáticas. O Parque das Merendas foi reabilitado com recurso a pedra em vez de madeira, aumentando a resistência às cheias, que se tornaram mais frequentes devido às alterações climáticas.
A Pateira de Fermentelos é, assim, um espaço onde natureza e comunidade se interligam profundamente. Perante os desafios impostos pelas espécies invasoras, a lagoa continua a afirmar-se como património natural e cultural. Preservá-la é garantir que este espelho de água continue a refletir não apenas o céu, mas também a história e o futuro de quem dela depende.

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