Lixo marinho nas praias portuguesas, uma realidade que as ações de limpeza costeira pretendem mudar.

Numa qualquer praia do Norte, quando vemos o azul do mar, ouvimos o barulho das suas ondas e sentimos o cheiro a maresia, imaginamos um ambiente fresco, tranquilo e belo. Este cenário idílico é, no entanto, muitas vezes, rompido pela poluição. A poluição por lixo marinho é um dos problemas ambientais mais visíveis nas praias portuguesas. O movimento Ajude a Limpar a Praia é uma das organizações que há 14 anos, através da realização de ações de limpeza em várias praias do Norte de Portugal envolvendo voluntários, tem vindo a atuar no sentido de promover a mudança desta realidade.

O Movimento Ajude a Limpar Praias (ALP) é uma marca nacional registada que, desde 21 de Abril de 2011, se dedica ao voluntariado ambiental para a comunidade, promovendo ações de limpeza nas praias portuguesas envolvendo voluntários de várias nacionalidades, famílias e grupos de amigos. Assim, mais do que remover resíduos, estas ações procuram incentivar uma atitude responsável, sobretudo nos mais jovens, promovendo valores de ética ambiental, responsabilidade social e espírito de grupo. De acordo com o fundador e criador do Movimento ALP, Rodolfo Amado, ao longo de 14 anos, foram realizadas 154 ações de limpeza, com a participação de cerca de 6.500 voluntários, que permitiram recolher aproximadamente 19 toneladas de lixo das praias portuguesas, o equivalente à carga de quatro camiões de Transporte Internacional de Mercadorias (TIR).

O objetivo deste Movimento é realizar pelo menos uma ação de limpeza por mês, contudo, nem sempre conseguem concretizar este propósito muito por causa dos períodos de época balnear e das condições meteorológicas adversas, como vento e chuva fortes, agitação marítima e baixas temperaturas.

Apesar de, atualmente, as pessoas terem maior acesso à informação e, aparentemente, uma maior consciência face às questões ambientais, a quantidade de resíduos encontrada nas praias nacionais continua a ser considerável e, particularmente, alarmante.

O plástico surge como o resíduo mais frequente nas zonas costeiras, sendo também encontrados grandes quantidades de vidros, objetos descartáveis e resíduos provenientes de atividades piscatórias diz, Rodolfo Silva. A falta de ações de limpeza regulares fora da época balnear contribui para a acumulação de resíduos nas praias durante a maior parte do ano.

Para além da remoção direta de lixo do ambiente, a recolha e separação seletiva destes resíduos tem um impacte ambiental adicional: a redução das emissões de dióxido de carbono. O encaminhamento dos materiais recolhidos para a reciclagem, reduz a produção de novos plásticos e emissão de mais gases poluentes. As ações de limpeza realizadas já permitiram evitar a emissão de cerca de 37 toneladas de dióxido de carbono, valor equivalente a seis voltas ao planeta de automóvel.

A acumulação de lixo marinho nas praias acarreta consequências graves para os ecossistemas costeiros e marinhos. Quando o lixo chega ao mar, muitos animais confundem pequenos fragmentos de plástico com alimento e ao ingeri-los, pode provocar obstruções internas, desnutrição e até a morte. Outros ficam presos em resíduos maiores, como embalagens ou redes de pesca, sofrendo ferimentos ou ficando impossibilitados de se mover.  

À medida que o plástico se degrada na areia e na água, origina microplásticos que entram na cadeia alimentar, afetando não só a vida marinha, mas também os seres humanos que dela dependem. Além disso, a presença constante de resíduos nas praias compromete o equilíbrio natural desses ecossistemas, degrada habitats e contribui para a perda da qualidade ambiental das zonas costeiras. 

“Não podemos estar à espera de que os outros façam todo o trabalho por nós”, diz Rodolfo Silva. Reduzir a presença de lixo marinho nas praias começa, inevitavelmente, nos comportamentos individuais de cada um. Escolhas simples do dia a dia, como evitar produtos descartáveis, consumir de forma mais consciente, reutilizar materiais e separar corretamente os resíduos para a reciclagem, permite diminuir o impacte ambiental associado à produção e eliminação de materiais, mas também reduz significativamente a probabilidade de estes acabarem no ambiente costeiro.

E reduzir a quantidade de resíduos não visa apenas manter as praias agradáveis, mas é fundamental para preservar os ecossistemas costeiros e a vida marinha.

Também ao frequentar a praia, trazer de volta todo o lixo produzido ou descartá-lo de forma correta nos ecopontos, e participar ativamente em ações de limpeza são formas diretas de contribuir para a preservação destes espaços.

A Agência Portuguesa do Ambiente divulga no Relatório do Estado do Ambiente (REA) de 2024, dados atualizados e a evolução das políticas e medidas implementadas em Portugal nas áreas do ambiente e do desenvolvimento sustentável.  No caso particular da avaliação da abundância e composição do macro lixo nas praias em Portugal continental, em 2023, o lixo marinho em praias era composto por plástico (88%), por artigos sanitários (6%), por papel e cartão (2%), e ainda por metal, vestuário/têxteis, madeira, barro e cerâmica, artigos médicos, vidro e borracha. As principais origens identificadas para estes resíduos foram: turismo e atividades recreativas (42%), saneamento (36%), pesca e aquacultura (17%), navegação (3%) e resíduos da cozinha provenientes da navegação, da pesca e de atividades offshore (2%). O nosso país terá de reduzir em 95% a quantidade de lixo total presente nas suas praias para alcançar o valor limite estipulado pela União Europeia.

Fontes:

Eva Oliveira, Isabela Astorga, Maria Oliveira