A salicórnia foi durante muito tempo vista como vegetação espontânea, quase uma erva daninha das marinhas. Hoje é cada vez mais valorizada como substituto natural do sal, ingrediente gourmet e produto regional com crescente presença em mercados europeus de nicho. Ela surge como um recurso estratégico, capaz de diversificar a economia e valorizar a marca territorial. O Investigador do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), Bernardo Duarte, afirma que “conservar a salicórnia vai muito além de proteger uma planta: é preservar um ecossistema que sustenta vida e cultura”. Ela cresce em ambientes costeiros onde a água do mar evapora e deixa solos muito salgados. Por depender diretamente destas condições, sempre que as salinas são degradadas, abandonadas ou afetadas por alterações ambientais, o habitat da salicórnia também é comprometido, levando à diminuição desta planta.

Salicornia ramosissima em plena floração nas margens da Ria de Aveiro.
Nas salinas de Aveiro, João caminha, por vocação e herança, com a segurança de quem pertence a este lugar. O marnoto conhece cada recanto da marinha e cada caminho de sal. Entre o brilho das salinas e o silêncio da paisagem, é também testemunha das mudanças que o tempo trouxe às marinhas de Aveiro. Perder as salinas significa enfrentar maiores riscos de erosão, menor retenção de água, perda de espécies e fragilização frente às mudanças climáticas. Além disso, é a descaracterização de um patrimônio cultural único. Segundo dados do portal oficial das Salinas de Aveiro, em 1956 existiam cerca de 270 marinhas ativas na região de Aveiro. Hoje em dia sobram apenas 9. A decadência da produção tradicional do sal deu-se pela industrialização, a perda de rentabilidade econômica e as rápidas mudanças tecnológicas. Contudo, alguns investigadores apontam novas oportunidades para estes ecossistemas. De acordo com estudos sobre plantas halófitas, a salicórnia tem sido identificada como uma espécie com potencial para valorizar economicamente ambientes salinos e contribuir para a preservação das salinas.

João Silva, marnoto de Aveiro, que dedica a sua vida à produção artesanal de sal.
A conservação da salicórnia e das salinas não é apenas uma questão ambiental, é uma estratégia essencial para garantir resiliência ecológica, econômica e cultural. João, que trabalha nas Salinas há muitos anos, conta que “Esta planta tem muitas propriedades boas, é antitumoral, ajuda com o emagrecimento, reduz o inchaço, a retenção de líquidos e a pressão arterial. É quase um superalimento”. Além disso, contribui para a educação ambiental, despertando consciência sobre o meio ambiente. A revitalização das salinas e dessa planta, representa uma oportunidade de unir tradição e inovação, criando um futuro mais sustentável e promissor para a região.Diversas pesquisas sobre ecossistemas costeiros indicam que a salicórnia está frequentemente presente em sapais, onde a mistura de água salgada e doce favorece uma grande variedade de organismos. Para muitos cientistas, estas plantas adaptadas ao sal parecem contribuir para a disposição física e funcional do habitat, influenciando como e onde outras espécies se instalam. Esse contexto tem sido explorado como um exemplo de como comunidades vegetais e animais interagem em ambientes de transição costeira. Segundo a professora e investigadora na FCUL Isabel Caçador, os sapais são cruciais para a descontaminação dos ecossistemas lagunares e estuarinos, retendo poluentes, entre os quais metais pesados, oriundos de atividades humanas, como a indústria, a agricultura e a urbanização. Ao habitar nestes locais, as plantas halófitas, como a Salicórnia, desempenham um papel fundamental: impedem a mobilização dos poluentes para a coluna de água, remediando a sua dispersão nos sistemas lagunares e consequente entrada nas teias tróficas.
Esta planta serve de abrigo e alimento para várias espécies que habitam as salinas da Ria de Aveiro. Entre elas encontra-se a lagarta da Borboleta-bebedora, uma espécie que depende deste habitat para completar o seu ciclo de vida. A lagarta da borboleta-bebedora é mais do que uma curiosidade da fauna local: ela é um indicador da saúde do ecossistema das salinas da Ria de Aveiro. Presente em áreas de vegetação halófita, como onde cresce a salicórnia, esta espécie depende de habitats bem conservados para se alimentar e se desenvolver. A sua presença sinaliza um equilíbrio ambiental saudável, com água de qualidade, sedimentos estáveis e biodiversidade preservada.

A lagarta da borboleta-bebedora: um indicador da biodiversidade das salinas.
No contexto mais amplo da Ria de Aveiro, iniciativas como a plataforma LTsER Ria de Aveiro e projetos de investigação e restauração de habitats costeiros demonstram que a proteção dos ecossistemas salinos é possível e necessária. Como afirma o biólogo responsável pelo projeto BioPradaRia, ”a preservação da biodiversidade e dos habitats naturais passa por ações integradas que envolvem ciência, gestão e participação comunitária. Projetos de restauração ecológica e conservação, apoiados por universidades e pela União Europeia, mostram caminhos para revitalizar as salinas e proteger espécies como a salicórnia, garantindo que elas continuem a florescer na paisagem única de Aveiro.”

Vista panorâmica das salinas da Ria de Aveiro — um ecossistema único a preservar.

You must be logged in to post a comment.