A CIÊNCIA COMEÇA NO PÁTIO DA ESCOLA

A biodiversidade que nos rodeia é, muitas vezes, invisível aos nossos olhos — está nas folhas das árvores do pátio, debaixo de uma pedra, na casca de um tronco...

Foi precisamente com este olhar curioso, de quem quer descobrir o que existe à sua volta, que nós, alunos da turma 8.º 1.ª da Escola Básica 2,3 Quinta de Marrocos, no bairro de Benfica, em Lisboa, nos lançámos na nossa primeira investigação científica no espaço exterior da escola, no âmbito da disciplina de Ciências Naturais. O objetivo foi identificar espécies pertencentes a diferentes grupos de seres vivos — os chamados reinos —, explorando o ecossistema local como laboratório vivo. Armados com o espírito da Ciência Cidadã (uma forma de fazer ciência que pertence a todos), percorremos o pátio da nossa escola à procura de seres vivos nos seus habitats naturais: nas árvores, no solo e em tudo o que compõe este pequeno ecossistema urbano.

Pelo caminho, entrevistámos as professoras responsáveis pelo Programa Eco-Escolas na EB Quinta de Marrocos, a Prof.ª Jacinta Oliveira e a Prof.ª Rosário Rodrigues (também nossa professora de Ciências Naturais), com o intuito de esclarecer esta abordagem da Biodiversidade e da Ciência Cidadã na escola: “A implementação do projeto nas escolas transforma a aprendizagem teórica numa experiência prática e com impacto real, fortalecendo a consciência ecológica dos alunos. Ao participarem ativamente na recolha de dados e na monitorização do meio envolvente, os alunos desenvolvem competências de literacia científica, de pensamento crítico e de responsabilidade social”, começou por referir a docente Jacinta Oliveira. Por outro lado, a professora Rosário Rodrigues acrescentou que “os projetos ambientais numa escola promovem o conhecimento local dos ambientes e dos ecossistemas, dos habitats, numa ótica de desenvolvimento sustentável, permitindo a recolha e a divulgação de dados científicos que podem contribuir para a preservação da biodiversidade.”.

Por indicação e apoio da nossa professora, recorremos à aplicação iNaturalist para o registo e identificação das espécies encontradas, uma ferramenta digital que transforma qualquer observação numa contribuição real para o conhecimento científico global: “É uma aplicação de uso simples, basta tirar uma fotografia a um ser vivo e é-nos sugerida a sua identificação. Se for confirmada pela comunidade científica, ficamos todos a saber que a mesma existe aqui neste sítio, em Lisboa” e “ao fotografarem e registarem espécies de plantas, insetos ou aves locais na aplicação, os alunos partilham dados valiosos com redes científicas reais, ajudando a mapear a fauna e a flora do local/região”, sublinhou a professora Jacinta Oliveira, a qual referiu igualmente os cuidados a manter durante a observação direta do meio natural envolvente: “devemos manter uma distância de segurança para não causar stresse aos animais, optando, por exemplo, pelo uso de lentes com zoom em vez da aproximação excessiva aos ninhos, tocas ou locais de alimentação. No caso dos insetos ou répteis, nunca se deve forçar o manuseio dos espécimes e, se for necessário desviar temporariamente uma pedra ou tronco para observação, essa pedra ou tronco deve ser recolocada(o) exatamente na mesma posição; além disso, a segurança dos alunos que fazem a exploração deve ser acautelada através do uso de vestuário apropriado ou luvas, evitando assim o contacto com plantas urticantes ou animais venenosos”. Pudemos, desta forma, conhecer melhor os seres vivos que povoam o pátio da nossa escola: árvores e arbustos (como a tília, o pinheiro, a oliveira, a laranjeira, o jacarandá, o loureiro, a roseira, entre outras – espécies exóticas na sua maioria e algumas delas já naturalizadas, isto é adaptadas, entretanto, ao nosso clima e solo), algumas espécies de fungos (cogumelos e líquenes), vários insetos como as formigas, as joaninhas, as abelhas, as borboletas e as vespas e, no solo, alguns invertebrados como minhocas, caracóis, escaravelhos, lesmas; quanto às aves, destacam-se, para além dos pombos, os melros.

Estas observações realizadas por nós, no espaço exterior da escola, foram usadas na realização de trabalhos interdisciplinares (nomeadamente com o apoio da disciplina de Português), tendo sido os mesmos divulgados em exposições, não só no âmbito escolar, mas ainda numa exposição coletiva do Programa Eco-Escolas, no Palácio Baldaya, promovida pela Junta de Freguesia de Benfica: “Deste esforço coletivo beneficia toda a comunidade escolar, uma vez que os resultados são partilhados com os encarregados de educação, com colegas e com a comunidade local”, concluiu a professora Jacinta Oliveira.

A nossa investigação mostrou-nos, em suma, que a ciência não se faz apenas em laboratórios, mas também nos espaços que habitamos todos os dias. Aprender a observar, a identificar e a compreender os seres vivos que nos rodeiam, permitiu-nos valorizar a biodiversidade existente no pátio da nossa escola e reconhecer a importância da sua preservação.