Ao olharmos para o mar, o que vemos é uma massa de água em movimento perpétuo, fria e aparentemente inesgotável. Mas para a engenharia de dados, essa vastidão azul é mais do que paisagem: é o maior radiador natural do planeta. Onde o olhar comum vê ondas, a indústria tecnológica identificou a solução para um dos seus maiores problemas: o sobreaquecimento. Foi desta premissa que nasceu, em outubro de 2025, o projeto da Hailan Cloud na Área Especial de Lin-gang. Em parceria com gigantes como a China Telecom e o Shenergy Group, este investimento de 226 milhões de dólares (ou 1,6 mil milhões de yuans) transformou o fluxo das correntes marítimas num sistema de refrigeração passiva para o primeiro centro de dados subaquático (UDC) de escala comercial do mundo, que usa energia eólica.
Este investimento responde a um cenário global crítico: estima-se que o consumo de eletricidade dos centros de dados seja de cerca de 415 terawatts-hora (TWh), ou cerca de 1,5% do consumo global de eletricidade em 2024. Esse consumo cresceu a uma taxa de 12% ao ano nos últimos cinco anos e, hoje, as necessidades energéticas continuam a aumentar. Outro problema são os sistemas de refrigeração, que também aumentam o consumo de água, visto que em 2023, os centros de dados dos Estados Unidos consumiram cerca de 17 mil milhões de galões de água, segundo análises federais e do setor. Por esta razão, houve sempre uma busca por diminuir este impacto.

Quantidade de galões de água utilizados por dia globalmente- fonte: Bluefield Research
O pioneirismo nesta área pertence à Microsoft, que entre 2014 e 2024 desenvolveu o Projeto Natick. O teste mais emblemático ocorreu na costa da Escócia, onde um contêiner com 864 servidores operou a 35 metros de profundidade. Embora os resultados iniciais tenham sido surpreendentes, com uma taxa de falha de hardware oito vezes menor do que em terra, graças à atmosfera inerte de nitrogénio e à ausência de intervenção humana, o projeto foi formalmente encerrado. A Microsoft confirmou que não pretende construir mais centros de dados subaquáticos. O motivo é claro: a dificuldade logística de manutenção e a impossibilidade de reparar componentes individuais ‘in loco’ tornam a operação comercialmente arriscada. Ao contrário da abordagem chinesa, que avança agora para a fase comercial, a gigante americana concluiu que a complexidade de içar módulos inteiros do fundo do oceano para corrigir pequenas falhas de hardware não compensa os ganhos de eficiência energética.
Apesar de as empresas garantirem um enorme benefício ao ambiente, o projeto enfrenta pontos fracos que não podem ser ignorados. Mesmo com um aumento mínimo na temperatura de um ecossistema, este pode sofrer grandes alterações, e o impacto do calor libertado pelas cápsulas na vida marinha ainda é uma incógnita a longo prazo. Existe também um grande custo financeiro, pois os materiais necessários para impedir corrosão ou distúrbios ambientais são extremamente caros. Além disso, a logística de manutenção permanece um desafio: se houver alguma falha, mergulhar os engenheiros não é uma opção e teríamos de esperar pela recolha total do módulo para efetuar reparações, o que pode ser muito caro e difícil de realizar-se com sucesso devido a alta probabilidade de algas crescerem em volta, assim com outros musgos marinhos e até de animais marinhos, o que dificulta a abertura do módulo. Portanto, embora poupe água e utilize energia limpa, esta inovação ainda não é a solução ‘ideal’.
A busca por alternativas continua, com planos para construir centros de dados na órbita terrestre através da Axiom Space; uma possibilidade onde a energia solar seria ilimitada, mas que, tal como o projeto chinês, enfrentará desafios monumentais na manutenção e na operação a milhares de quilómetros de distância. Segundo Yang Ye, vice-presidente da Highlander, que lidera o projeto com empresas estatais, as “Instalações subaquáticas nos permitem economizar aproximadamente 90% da energia usada para refrigeração“. O setor dos Data Centers é um setor recente em expansão exponencial, e como tal avizinham ajustamentos para fazer frente a estes desafios energéticos e ambientais.

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