Poluição Sem Fronteiras, Esforço Sem Limites: A Missão Ecos da Natureza

Nas águas que rodeiam o concelho de Oeiras, uma equipa de voluntários e especialistas do programa “Ecos da Natureza” moldam o futuro da flora e fauna local de forma persistente. Através da monitorização com pesca elétrica e da recuperação ativa de habitats, o projeto tenta salvaguardar cinco espécies de peixes nativos, três das quais em risco crítico, enfrentando o grande desafio de proteger um ecossistema que não conhece fronteiras e que ainda sofre com o impacto da poluição industrial e urbana.

Uma espécie é tecnicamente considerada em vias de extinção quando a sua sobrevivência a longo prazo é improvável se os fatores que causam o seu declínio continuarem a atuar sem intervenção. Em Oeiras, esta realidade levou à criação de uma estratégia de preservação focada na regeneração das linhas de água, transformando ribeiras que outrora serviam de depósito para resíduos em locais onde a vida selvagem pode, finalmente, respirar. O trabalho de campo é meticuloso e começa com o uso de uma máquina de pesca elétrica, uma ferramenta técnica que emite uma descarga controlada para atordoar temporariamente os peixes, permitindo a sua contagem e identificação rigorosa sem causar grandes danos.

Neste momento, o foco dos especialistas incide sobre cinco espécies nativas fundamentais: a boga portuguesa e o escalo do sul, ambos classificados como ameaçados e típicos da nossa região; a enguia europeia, que se encontra em perigo crítico de extinção devido à pressão da pesca comercial ilegal de juvenis; e ainda o barbo comum e o verdemar.

Espécies encontradas na Ribeira da Laje em Oeiras.

A solução para a perda destas espécies passa pela reconstrução do habitat. Os voluntários do Ecos da Natureza trabalham na plantação de espécies aquáticas nativas como a tábua e o lírio-dos-pântanos, que formam aglomerados densos essenciais para que peixes e aves possam depositar os seus ovos e construir ninhos em segurança. Estas plantas desempenham ainda um papel importante no equilíbrio químico da água, ao contrário das algas, que podem consumir oxigénio em excesso durante a noite e causar a morte dos peixes, estas plantas mantêm a estabilidade do ecossistema e ajudam a segurar o solo das margens da ribeira. Como afirma a voluntária Inês Santos, trata-se de “um esforço contínuo e que deve existir sempre, mas que no final funciona”, algo visível na forma como o ecossistema se tem tornado progressivamente autossustentável.

Contudo, este esforço enfrenta um tema difícil de ignorar. Apesar de Oeiras ter conseguido limpar as suas ribeiras, que num passado não muito distante chegaram a ter pranchas de surf e eletrodomésticos abandonados no leito, o rio atravessa diversos concelhos. Muitas vezes, descargas ilegais de empresas e efluentes não controlados provenientes de zonas vizinhas poluem as águas que o programa tanto se esforçam para manter limpas. Mediante isso, surge a seguinte questão: Se os municípios vizinhos não partilharem desta mesma preocupação e rigor na proteção das espécies, como será possível controlar de forma eficaz a poluição que não respeita limites geográficos?

O trabalho desenvolvido pelo programa Ecos da Natureza é um testemunho real de que a conservação ambiental é possível quando juntamos o rigor técnico e dedicação voluntária. É, com isto, essencial a união entre concelhos vizinhos para que os esforços dos voluntários nesta zona da Ribeira da Lage tenham, não só, um impacto real e significativo na sobrevivência destas espécies nativas em perigo de extinção mas também na estabilidade do ecossistema na ribeira.

 

Kasper Withrow, Pedro Santos, Isabela Astorga, Rita Sousa, Leonor Lopes