O desconhecimento é mais perigoso que o mosquito

Recentemente, em Portugal, o pânico perante a expansão do mosquito-tigre (Aedes albopictus) levou ao aterro imediato de um charco numa escola, uma medida drástica tomada por desconhecimento que coloca em causa a sobrevivência destes ecossistemas. Especialistas alertam que esta destruição ignora a biologia do inseto e compromete a segurança das populações ao eliminar os predadores naturais que controlam as pragas. A ação baseia-se no mito de que toda a água é um foco de infeção, quando, na verdade, a eliminação desta estrutura remove a principal barreira biológica contra a propagação de doenças.

Onde antes pulsava um ecossistema de “água viva”, resta agora um aterro silencioso e uma biodiversidade dizimada. Por ordem direta das autoridades de saúde locais, um charco pedagógico numa escola próxima de Braga foi eliminado sob o pretexto de travar a expansão do mosquito-tigre (Aedes albopictus). Contudo, o que foi apresentado como uma medida de segurança sanitária é, segundo especialistas, “um erro estratégico grave: ao destruir o habitat dos predadores naturais, a autoridade de saúde eliminou a única barreira biológica eficaz”, transformando um aliado ecológico num potencial berçário para a praga que pretendia combater.

Ao contrário dos focos domésticos de água estagnada, como pratos de vasos ou pneus, onde o mosquito-tigre prefere depositar ovos pela ausência de competição, os charcos equilibrados funcionam como “armadilhas ecológicas”. Ao impor a eliminação desta barreira, a autoridade de saúde não só extinguiu um recurso educativo, como criou um vácuo sanitário: sem libelinhas e anfíbios, qualquer nova acumulação de água na zona envolvente fica agora livre de predadores, facilitando uma propagação exponencial da espécie.

Em entrevista, o biólogo e investigador do Centro de Ecologia Funcional, Jael Palhas, revela que é crucial separar os factos: “Enquanto o mosquito comum pode usar águas estagnadas de maior dimensão, o mosquito-tigre é um especialista em recipientes artificiais minúsculos”. Na sua origem, esta espécie utilizava pequenas estruturas naturais, como ocos de árvores, para colocar os seus ovos em segurança, hábito que agora replica em ambiente urbano.

Para o biólogo, os principais culpados são “os pratos de vasos, pneus, tampas ou caleiras entupidas”. Nestes locais, a água é “morta” e não existe biodiversidade para travar o ciclo de reprodução. Pelo contrário, a fauna de um charco, anfíbios, libélulas e escaravelhos aquáticos, atua como uma verdadeira “polícia sanitária”. Jael Palhas reforça que estes predadores patrulham a água e eliminam as larvas antes que cheguem à fase adulta. O mosquito-tigre evita estes locais porque as suas larvas, que respiram oxigénio atmosférico à superfície, são presas fáceis. Além disso, plantas como o limo-mosquiteiro (Utricularia), que captura larvas, e algas do género Chara, que funcionam como repelentes, tornam o charco um aliado e não uma ameaça.

Jael Palhas

Por esta razão, o investigador alerta que o aterro pode criar mais problemas de saúde pública do que soluções. Ao destruir o habitat dos predadores, podem formar-se poças de lama temporárias que, sem vigilância biológica, se tornam berçários ideais. O conselho para as escolas é claro, “em vez de eliminar os charcos, deve-se monitorizar a presença de predadores e focar a limpeza nos pequenos recipientes”. Jael incentiva ainda o uso da plataforma MosquitoWeb, onde qualquer cidadão pode ajudar a identificar e vigiar a expansão destas espécies em Portugal.

O investigador clarifica que “a luta contra o mosquito-tigre não se trava com a destruição de ecossistemas, mas com vigilância consciente”. Proteger os charcos pedagógicos e eliminar a água estagnada em recipientes artificiais é a única estratégia eficaz. Ao substituirmos o medo pela informação, transformamos o que era visto como ameaça num escudo biológico essencial para o equilíbrio do território.