Ribeira da Aguieira, no parque da Boiça, um nicho de biodiversidade

O troço da Ribeira da Aguieira, integrado no Parque da Boiça e na sequência de um processo de reabilitação fluvial, apresenta-se como um espaço de promoção da biodiversidade.

De acordo com Pedro Teiga da E.Rio, a Ribeira da Aguieira foi alvo de uma intervenção no âmbito da reabilitação fluvial que pretendeu renaturalizar as margens e o leito através de técnicas de engenharia natural. Esta intervenção melhorou a ribeira e permitiu implementar o Laboratórios Rios+, espaço de demonstração e de educação ambiental com soluções de melhoria para rios e ribeiras e uma agenda de atividades de envolvimento e participação pública.

Os rios representam um dos ecossistemas mais ricos e biodiversos quando em equilíbrio hidrológico, ecológico e social. Assim, é de extrema importância preservar as espécies ripícolas autóctones de fauna e flora, ou seja, nativas do nosso país. Naturalmente, a vegetação desempenha um papel fundamental nas margens ribeirinhas, pois não só promove o habitat faunístico (peixes, aves, anfíbios, répteis, invertebrados terrestres e aquáticos) como também reforça a estabilização das margens, funcionando como filtro a poluentes provenientes dos espaços a montante e adjacentes, criando também ensombramento na linha de água, aspeto essencial para a sua qualidade.

A fauna existente nesta Ribeira da Aguieira inclui o guarda-rios (Alcedo atthis), a lontra-europeia (Lutra lutra), o lagarto-d’água (Lacerta schreiberi), a enguia-europeia (Anguilla anguilla), o imperador (Anax imperator), o pavão-diurno (Aglais io) e a cobra-d’Água-viperina (Natrix maura).

A Urtica dioica é uma das espécies mais frequente nas margens da Ribeira da Aguieira.

Por outro lado, a flora inclui o amieiro (Alnus glutinosa), o freixo (Fraxinus angustifolia subsp. angustifolia), o salgueiro-preto (Salix atrocinerea), o sanguinho-de-água (Frangula alnus), o sabugueiro (Sambucus nigra), o pilriteiro (Crataegus monogyna) e a urtiga (Urtica dioica). A urtiga é referida pelas suas propriedades medicinais, nomeadamente anti-inflamatórias.

 

 

 

“Planta do Betadine”, com usos medicinais tradicionais.

Referida por Pedro Teiga, a “Planta do Betadine” (Chelidonium majus),encontrada nas margens da Ribeira, também conhecida como quelidónia, celidónia ou betadine dos pobres, é usada tradicionalmente no tratamento de verrugas e pequenas feridas, sendo que as suas propriedades também são eficazes no tratamento de problemas de pele através de um “líquido amarelo” que também serve para fazer desenhos.

 

 

Líquenes, bioindicadores da qualidade do ar local.

De igual importância, os líquenes, frequentemente encontrados nas árvores junto à Ribeira da Aguieira, são indicadores da qualidade do ar, funcionando como bioindicadores. São organismos simbióticos, resultantes da associação entre um fungo e uma alga, e apresentam diferentes formas. Os folhosos possuem um talo com aspeto de folhas lobadas ou estruturas achatadas, fixando-se ao substrato — como troncos, rochas ou solos — de modo pouco aderente. Distinguem-se dos crostosos, que se apresentam fortemente aderidos como crostas, e dos fruticulosos, de estrutura mais arbustiva.

No contexto das alterações climáticas, que têm aumentado a frequência e intensidade de eventos extremos, como cheias, existe risco de acumulação de detritos nas margens da ribeira. Torna-se, por isso, necessária a realização de intervenções regulares para garantir a manutenção das condições que asseguram a conservação da linha de água e da biodiversidade associada.

Mais do que um simples curso de água, a Ribeira da Aguieira é um exemplo de como a intervenção humana pode ser positiva quando respeita a natureza. A recuperação das margens e a valorização das espécies autóctones demonstram que é possível conciliar desenvolvimento, educação ambiental e preservação dos ecossistemas. Proteger estes espaços não é apenas uma questão ambiental, mas também uma responsabilidade coletiva. Cuidar dos rios hoje significa garantir equilíbrio, biodiversidade e qualidade de vida amanhã.

 

Ema Martins (EBS Alto dos Moinhos), Luana Cardoso (Escola Superior de Saúde de Lisboa, Politécnico de Lisboa)