A Horta do Moinho das Antas, em Paço de Arcos, consolidou-se como um espaço vital de integração social e de sustentabilidade em Oeiras. Com 100 talhões que reúnem jovens de 15 anos a reformados com mais de 80 anos, o projeto responde a uma crescente procura da população, visível numa lista de espera de cerca de 500 pessoas.
As hortas urbanas são iniciativas essenciais para a sustentabilidade, transformando áreas de jardim subaproveitadas em espaços ecológicos que respondem às necessidades reais da população.
O município de Oeiras criou, em 2012, um programa municipal, posteriormente implementado em 2016, o que permitiu que esta horta alterasse a paisagem e a vivência de Paço de Arcos, oferecendo aos cidadãos um espaço de lazer, aprendizagem e produção biológica.
Com o objetivo de potenciar a biodiversidade, sensibilizar a população para a defesa do ambiente e incentivar práticas agrícolas tradicionais, a Horta Moinho das Antas foi alvo de uma profunda reorganização. Hoje, destaca-se das restantes seis hortas comunitárias do concelho por ser a única de portas abertas. Com o apoio da Associação Pombal XXI, o terreno foi dividido para acolher a diversidade da comunidade: 30 talhões de cariz social foram atribuídos a horticultores experientes e maioritariamente reformados, enquanto outros 20 talhões de recreio foram destinados a cidadãos ativos profissionalmente, completando um total de 100 parcelas disponíveis.
Para ter acesso a um dos talhões, com cerca de 25 metros quadrados cada, os interessados podem candidatar-se através de uma plataforma digital. Enquanto no passado a seleção dava prioridade à proximidade geográfica, hoje rege-se também pela ordem de candidatura, refletindo a elevada procura: existem perto de 200 agricultores no ativo e uma impressionante lista de espera que ultrapassa as 500 pessoas. O perfil dos hortelões ilustra o caráter intergeracional do projeto, sendo frequentado essencialmente por famílias e reformados. O entusiasmo pela terra é tal que, embora a idade mínima exigida seja de 18 anos, foi aberta uma exceção para o hortelão mais novo do recinto, de apenas 15 anos, que partilha o espaço com agricultores com mais de 80.

Agricultor reformado no cultivo do seu talhão individual na horta urbana
A utilização do espaço implica uma taxa anual de 60,58€, que garante o uso da terra, o acesso à água e um espaço de arrumação no abrigo de apoio. As regras ecológicas para a utilização são claras: a produção tem de ser biológica, sendo absolutamente proibido o uso de pesticidas ou químicos. As inspeções regulares garantem que o regulamento é cumprido, incentivando-se a compostagem individual para a fertilização dos solos. O ecossistema também possui um pomar partilhado, bem como “hotéis de insetos” espalhados estrategicamente para atrair polinizadores. O conhecimento é partilhado através de um talhão pedagógico, onde se realizam cerca de 12 ações de formação anuais, com temas sobre agricultura biológica, pragas e compostagem, sensibilizando escolas e a população. Para além disso, a comunidade conta frequentemente com a ajuda preciosa de voluntários, como jovens universitários, cujos iniciativas ao longo do ano trazem auxílio extra para apoiar os hortelões no trabalho.
A Horta Urbana Pedreira Italiana nasceu da requalificação de um terreno já utilizado para o cultivo clandestino, mas outras, como a Horta Moinho das Antas foram planeadas de raiz. Neste momento, a câmara municipal de Oeiras esforça-se para garantir que os agricultores cumprem as regras, uma vez que, por vezes, os agricultores mantêm barracas de arrumação interditadas pelo regulamento.
Apesar dos inegáveis benefícios para a população, a manutenção de uma horta urbana ao ar livre traz desafios, especialmente no que toca a pragas que causam danos severos nas plantações. Os hortelões do Moinho das Antas debatem-se diariamente com duas ameaças principais: ratos e pombos. O problema dos roedores tem-se revelado um enigma até para os especialistas. Paula Alberto, a bióloga responsável pelo projeto, não conseguiu determinar a proveniência dos ratos, hesitando entre o sistema de esgotos ou a atração provocada pelos restos de comida colocados nos compostores.

Horta do Moinho das Antas
Já a questão dos pombos revela um problema burocrático. Sendo aves que destroem as culturas agrícolas, a solução instintiva dos agricultores passaria pela colocação de espantalhos ou de outras proteções visuais. No entanto, este desejo esbarra diretamente na vontade da Câmara Municipal, que proíbe a colocação de objetos e adornos nas hortas. A autarquia prioriza a manutenção de um espaço visualmente limpo e padronizado, evitando que o local perca a estética de jardim urbano. Este contraponto cria um sentimento de impotência entre a população hortelã, que se vê privada dos métodos tradicionais de proteção agrícola para satisfazer o rigor paisagístico do município, ilustrando as complexidades de gerir um ecossistema produtivo no coração da cidade.
Poderá o sucesso da Horta do Moinho das Antas, entre o empenho dos voluntários e a forte adesão intergeracional, superar os problemas burocráticos e os desafios naturais que testam diariamente a resiliência de quem cultiva?

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