Orquídeas Invisíveis e Flores Discretas: A Vida Secreta da Quinta do Pisão

Entre os trilhos húmidos da vertente sul da Serra de Sintra, a Quinta do Pisão esconde uma surpreendente diversidade de flores silvestres. Das orquídeas discretas que dependem de fungos do solo para sobreviver às ervilhas‑de‑cheiro que pintam a paisagem, a investigação revela um ecossistema frágil, rico e profundamente ligado à conservação da biodiversidade.

Existem diversas espécies de plantas espalhadas pela Quinta do Pisão, devido ao microclima húmido da vertente sul da Serra de Sintra. Podemos encontrar um grande número de biodiversidade, como por exemplo: Ervilhas-de-Cheiro, Orquídeas silvestres que crescem de forma natural, sem intervenção humana.
Estas plantas desenvolvem uma relação muito especial com fungos do solo, que ajudam na germinação das sementes que é um processo importante para a sua sobrevivência.

A época de floração atinge o seu auge entre abril e junho, na primavera e início do verão.
Nos trilhos da Quinta do Pisão, normalmente existem várias espécies de orquídeas. Cada uma tem uma cor, forma e cheiro diferentes. Algumas orquídeas que se podem encontrar são as orquídea-abelha (Ophrys apifera), orquídea-homem (Orchis anthropophora) e a orquídea piramidal (Anacamptis pyramidalis).
Infelizmente durante a nossa visita à Quinta do Pisão, não conseguimos identificar Orquídeas, sendo elas muito difíceis de encontrar e não haver uma área específica para as localizar. Mas entretanto é mais comum encontrar Ervilhas-de-cheiro (Lathyrus odoratus), que têm um visual parecido com as Orquídeas já na forma adulta. Estas plantas que lembram pequenas borboletas, são plantas trepadeiras, que precisam de um suporte ao crescer. Embora possam ser usadas para fins ornamentais ou aromáticos, as sementes (ervilhas) das variedades de cheiro são tóxicas e não devem ser consumidas.

De acordo com a Dra. Filipa Machado, DGEE | Divisão de Natureza e Biodiversidade, da EMAC – Empresa Municipal de Ambiente de Cascais, a Quinta do Pisão abriga cerca de 15 a 16 espécies de orquídeas selvagens, distintas das ornamentais tropicais. As espécies locais, como a Orquídea piramidal (Anacamptis pyramidalis) e a erva-vespa-rosada (Ophrys tenthredinifera), são terrestres e discretas. A venda de orquídeas selvagens é proibida pela convenção CITES, permitindo-se apenas a comercialização de espécies propagadas em viveiro com certificados. A sub-espécie Ophrys speculum lusitanica é considerada endémica da Península Ibérica.

A melhor época para observar a floração destas orquídeas é entre o final de fevereiro e o final de abril. As orquídeas dependem de uma simbiose com fungos micorrízicos e da “biocrusta” do solo para germinar e sobreviver. Os seus polinizadores incluem abelhões, vespas selvagens e coleópteros, atraídos pela mimetização das flores do género Ophrys. A polinização ocorre quando o pólen (polinídias) adere ao corpo dos insetos.

As principais ameaças às orquídeas incluem a progressão da vegetação que fecha os prados, a competição com plantas invasoras como as pampas, a recolha excessiva de flores, o corte com roçadoras, o pastoreio excessivo que leva à nitrificação do solo, e as alterações climáticas que afetam os microrganismos do solo e o ciclo de vida das plantas.

Para a conservação, a Quinta do Pisão, integrada no Parque Natural Sintra-Cascais e Rede Natura 2000, implementa a gestão de matos através de corte mecânico, fogo controlado e pastoreio extensivo para manter clareiras. Realiza-se a monitorização de habitats e espécies, o controlo de plantas invasoras e ações de sensibilização e ciência cidadã, incentivando os visitantes a registarem as suas observações em plataformas como a biodiversity4all/inaturalist. O inventário e monitorização são feitos através de divisões em quadrículas de 100mx100m.

Também foi partilhado pela equipa da quinta, que por razões de preservação das espécies, que intencionalmente não é publicado a localização das orquídeas, porque no passado já aconteceu visitantes não respeitarem o espaço e arrancarem as flores e ervas para uso próprio. Foi interessante aprender que as orquídeas silvestres têm uma aparência bastante diferente das orquídeas vendidas comercialmente.

Recomenda-se aos visitantes que permaneçam nos trilhos demarcados para evitar pisar as plantas e que não recolham flores. A contribuição dos visitantes através da ciência cidadã é valiosa para o ajuste das medidas de gestão da área.