Circularidade nos stands do Rock in Rio Lisboa

Como evidenciado na sua política de sustentabilidade, a Rock World procura ser mais sustentável a cada edição dos eventos que organiza. O Rock in Rio Lisboa compromete-se então com um exigente plano de gestão de resíduos, reutilização de materiais entre eventos e edições, doação de materiais no final do evento e doação de sobras alimentares em boas condições para pessoas e famílias carenciadas, entre outras iniciativas prioritárias na ótica da sustentabilidade.

No Rock in Rio Lisboa (RIR), a partir da edição de 2008, o festival conquista o selo 100R, da Sociedade Ponto Verde (SPV), em que 100% dos resíduos do evento são corretamente encaminhados. Desde 2016, as edições são um evento “zero resíduos em aterro”, o que significa que 100% dos resíduos produzidos são reutilizados pela organização ou por outros, reciclados ou valorizados orgânica ou energeticamente. Apelidado de Parque Tejo, o próprio local do festival assenta na reutilização de um espaço outrora degradado por ter sido um antigo aterro sanitário (encerrado e selado atualmente). Assim sendo, o RIR em conjunto com a SPV, a Valorsul, a Câmara Municipal de Lisboa e outras entidades, tem vindo a desenhar ao longo dos anos um exigente e amplo plano de gestão sustentável do festival.

Em conversa com a gerente de sustentabilidade operacional da Rock World,  Letícia Freire afirma que “O grande desafio é uma cidade grande como esta com 100 mil pessoas. Não conseguimos controlar tudo o que as pessoas trazem de casa, mas controlamos tudo o que vem daqui de dentro”. Neste sentido, não são apenas os festivaleiros que produzem resíduos (a jusante), mas os stands das marcas e empresas parceiras e os estabelecimentos de catering e restauração (a montante).

Quando questionada sobre como é feita a fiscalização e com que frequência dos resíduos gerados nos stands, a analista da sustentabilidade do RIR, Gabriela Cunha, respondeu que “Não existe propriamente uma fiscalização, mas sim um mapeamento e uma monitorização. Os materiais das estruturas dos stands, dos brindes e dos restantes resíduos produzidos são controlados”.

Letícia Freire menciona que “As estruturas de todo o festival são móveis, nada permanente. Muita coisa também é alugada, e essa já não é doada. Ou seja, a parte cenográfica pode ser reutilizada por outros festivais e para outras funções”. Neste momento já é totalmente proibido a construção na Cidade do Rock. Opta-se por estruturas modulares (e.g. palco) e alugadas (e.g. contentores) com objetivo de reduzir significativamente a produção de resíduos nas fases de montagem e desmontagem, facilitando não só todo esse processo como o da reutilização numa fase mais avançada.

Relva sintética, linóleo, carpete, lona e tecido são alguns dos principais materiais doados após o seu uso no festival. Para além de moradores, já mais de 10 instituições recolheram as estruturas e materiais, tais como: MEO Kalorama, Boom Festival, REMAR, Enreajuda e CEDEMA.

Ricardo Lagoa, Diretor de Marketing, Sensibilização e Comunicação da SPV, diz que “a SPV ajudou na elaboração de um manual de regras de sustentabilidade a seguir pelas empresas no festival”, onde se incluem os stands e brindes, por exemplo. Relativamente aos brindes, a informação fornecida pelas marcas (utilidade, mensagem, materiais, formato, embalagem e quantidades, etc.) deve ser clara para que possam ser aprovados pelo gabinete de sustentabilidade para o evento, a fim de continuarem a despertar o interesse e que não sejam descartados imediatamente após o festival.

Alguns dos stands e respectivas ofertas são os seguintes:

  • SPV: leque de papel.
  • Estrela da Amadora: foram recusados bate-palmas, bolas insufláveis e leques constituídos por duas peças diferentes, tudo de plástico.
  • Sporting CP: chapéus de palha e ventosas de suporte para telemóvel.
  • Compal: alguns brindes também não foram aprovados e oferecem redes de fruta de pano e almofada de tecido não tecido para assento.
  • Comboios de Portugal (CP): pinturas no rosto com glitter (que apresenta microplásticos), mas assim como na banca do Sporting CP, não pôde oferecer apenas o glitter.
  • Licor Beirão: bebida oferecida e servida num copo reutilizável e reciclável.

    Brindes oferecidos pela Compal.

Brindes oferecidos pelo Sporting CP.

 

 

 

 

 

 

Ainda podem ser devolvidos os copos de plástico reutilizáveis tanto para reciclagem como para reutilização (estes são higienizados) através de umas máquinas da Trash4Goods espalhadas pelo recinto, sendo possível ganhar prémios ou brindes.

Noutra vertente, a organização do festival preocupa-se também com as áreas dedicadas à alimentação, procurando garantir que os mais de 70 pontos de alimentação e bebida espalhados pelo recinto tenham uma política de combate ao desperdício alimentar, um problema bastante comum neste tipo de eventos. Segundo Gabriela Cunha, a maior quantidade de resíduos produzidos são os da restauração. Os stands têm de cumprir com a separação correta de forma autónoma para depois serem devidamente recolhidos pela Valorsul.

Contentores de 120 L colocados na zona de restauração para o staff do RIR.

O desperdício alimentar é portanto uma iniciativa prioritária na gestão de resíduos pelo RIR, em que existe um conjunto de regras para reduzir a sua quantidade. Neste momento está totalmente implementada a separação correta dos óleos alimentares e resíduos orgânicos (responsabilidade dos HORECA), enviados para reciclagem e valorização. Existem outras medidas mas estão parcialmente implementadas, tais como a caracterização dos resíduos indiferenciados, servir a “dose certa”, privilegiar o uso de loiça reutilizável e de embalagens (recicláveis ou compostáveis) que sirvam para acondicionar estritamente alimentos.

O estabelecimento do Intermarché é um dos exemplos que já têm em conta algumas destas regras. O Diretor de Marketing do Intermarché, Pedro Gandum, confirma que “de facto não possuímos praticamente nenhum resíduo indiferenciado. É tudo separado e recolhido seletivamente. Não possuímos também praticamente nenhum resíduo alimentar nem da pré-confeção nem do pós-consumo.” Acrescenta que “A comida congelada que não chegou a ser aquecida, volta para a fábrica, continuando congelada ao longo de todo o processo”. Pedro Gandum destaca ainda a parceria com a Refood, que assume a recolha e triagem dos alimentos quentes que não foram servidos, garantindo o seu encaminhamento para doação ou valorização orgânica.

Entrevista com Pedro Gandum e um dos funcionários do Intermarché.

Deste modo, constitui uma prática exemplar realizada pelos serviços de catering do RIR, em que a Refood realiza a recolha completa de todas as sobras alimentares – uma tradição que vem desde os primeiros eventos e que, na edição do ano passado, permitiu doar cerca de 30 mil refeições. A Refood é uma instituição particular de solidariedade social que já tem 14 anos. Nasceu em Lisboa o primeiro núcleo e tem-se alargado a sua ação pelo país, designadamente em grandes eventos, tal como o RIR.

Miguel Peixoto, um dos 7 500 voluntários dos 70 núcleos pertencentes à Refood, coordena, para além do núcleo de Alvalade, o grupo referente ao RIR. O voluntário diz que “As primeiras recolhas começam com o almoço nas tendas VIPs, tendas do staff dos músicos e depois de todas as casinhas, stands e rulotes, e terminam quando encerra o recinto, pelas 2 ou 3 horas da manhã. Temos cerca de 30 minutos para efetuar a recolha de todas as sobras que possam haver, transportando-as nas nossas viaturas para os nossos centros de operações”. Dos 30 voluntários deste ano, pelo menos 15 estão sempre no recinto prontos para esse trabalho. Tudo o que é recolhido é armazenado, refrigerado e entregue a pessoas e famílias carenciadas logo à primeira oportunidade (no máximo, em média em 24 horas), visto que a comida não dá para ser guardada durante muitos dias.

Relativamente a quantidades, no primeiro dia desta edição (no sábado do primeiro fim de semana), foram recuperadas 670 refeições, entre o período do almoço e do jantar. Já existem balanças conectadas a sistemas informáticos com a finalidade de pesar a comida, havendo uma maior fiabilidade nos resultados e do impacto da atividade efetuada pela Refood. Miguel comenta que “se considerarmos que cada pessoa come em média 0,5 kg de comida numa refeição, conseguimos estimar posteriormente quantas refeições são salvas”. 

O voluntário confirma que “A Refood não recolhe restos alimentares, mas sim alimentos confecionados ainda passíveis de serem consumidos. Os resíduos alimentares é que vão para o contentor castanho e posteriormente para compostagem. Como diz o nosso fundador, Hunter Halder: a comida perde valor comercial, mas não perde valor nutricional”.

António Vicente, Beatriz Direitinho, Eduarda Alves, Lukas Vyhnalik