Rock in Rio: quando o rock chega ao ninho

O Rock in Rio é um dos maiores festivais do país, e afirma estar na vanguarda da sustentabilidade, mas quando o festival faz jus ao seu nome e se realiza nas margens da Reserva Natural do Estuário do rio Tejo, surgem questões sobre os potenciais impactos numa das áreas mais importantes para a conservação de aves em Portugal. Entre concertos de elevada intensidade sonora, espetáculos de pirotecnia e demonstrações aéreas, conseguirão as aves residentes aguentar o rock n’ roll ?

O Rock in Rio Lisboa volta pela segunda vez ao Parque Tejo, um recinto situado junto à Reserva Natural do Estuário do rio Tejo, uma das mais importantes áreas de conservação de aves em Portugal.

O estuário do Tejo é uma das zonas húmidas mais importantes do país, misturando água doce do rio Tejo com a água salgada do oceano Atlântico,criando uma paisagem estuarina, onde predominam sapais, lodaçais e canais pouco profundos, criando condições ótimas para a existência de aves aquáticas, existindo grande quantidade e variedade de alimento e muitas áreas onde estes animais podem descansar, esconderem-se de predadores e nidificar e criar os seus juvenis. Estas condições ideias para a existência e proliferação de aves levam a que, em certas alturas do ano, possam existir até 12.000 aves migratórias nesta reserva natural.

No estuário habitam espécies icónicas como o flamingo,que pode ser avistado todo o ano,mas predominantemente durante o Inverno e outras espécies típicas do estuário como o colhereiro. Durante o mês de Maio até Agosto, coincidindo com a data do Rock in Rio,muitas aves aquáticas usam os refúgios naturais desta reserva natural para nidificar (pôr e chocar os seus ovos), e criar os seus juvenis até que estes sejam independentes. Dessas espécies podemos destacar o pernilongo, a garça vermelha,  o pato real , a águia sapeira e a andorinha-do-mar-anã , também conhecida por chilreta, ambos com estatuto de Vulnerável em Portugal.

Aves são animais bastante sensíveis a ruídos altos podendo estes levar a ninhadas mais pequenas, menor número de crias que chegam à fase de voo, redução do sucesso de eclosão, crias mais pequenas, crescimento mais lento e efeitos mais fortes de stress fisiológico e abandono de ninhos, deixando juvenis indefesos.

Num festival de música como o Rock in Rio,o som produzido por concertos pode atingir dos 100 dB aos 110 dB de intensidade (no limiar sonoro extremo), já provocando grande incómodo com os moradores das zonas circundantes, tendo as entradas no portal da queixa relacionadas com o Rock in Rio aumentado cerca de 97% comparado com edições anteriores, sendo uma das principais queixas o ruído excessivo emitido..Não esquecendo também o tradicional espetáculo de pirotecnia do Rock in Rio que pode emitir de 150 a 175 dBs de ruído.Estes espetáculos são particularmente preocupantes levando ao pânico, desorientação e stress extremo com risco acrescido de ferimentos graves e mortalidade. Além destas condições já desfavoráveis,num dos períodos onde aves são mais ativas,às 20 horas, o festival tem uma novidade, um novo espetáculo de aviação , quatro aviões fazem acrobacias no ar para deleite dos festivaleiros contrastando com pânico e fuga das aves que habitam no estuário, afetando períodos de alimentação e reprodução.

Espetáculo aviação junto ao palco Mundo

Em 2024 , em preparação do novo festival, junto com o parecer da Câmara de Lisboa, relativamente aos potenciais riscos do festival na região, o ICNF afirmou  que “ níveis de ruído provocados pelo festival de música não irão colocar em perigo as aves nas zonas circundantes, algo que foi posto em causa pelo deputado Jorge Pinto  do partido Livre, devido à “ falta de rigor técnico no documento apresentado” .

Além do som existe outro fator preocupante neste festival, no decorrer dos espetáculos é comum que artistas decidam soltar confetes de forma artística, de forma a destacar os seus concertos, como foi o caso de Pedro Sampaio e Katy Perry no primeiro dia deste festival. Num festival que acontece nas margens de um rio, a probabilidade é quase certa que os confetes se espalharem para a água, a organização afirma que os confetes são biodegradáveis, mas não divulga os componentes destes confetes biodegradáveis, havendo a possibilidade destes confetes terem algum componente tóxico, que ao serem ingeridos por peixes e outros animais aquáticos que irão servir de alimento para outros, podem contaminar toda a cadeia alimentar presente neste delicado ecossistema.

No final, a questão que se deve colocar é simples: numa era da história mundial em que as alterações climáticas e a proteção da biodiversidade assumem uma importância crescente, será que os benefícios económicos e mediáticos de um dos maiores festivais de música do país justificam comprometer o delicado equilíbrio de uma das mais importantes reservas naturais de Portugal?

Beatriz Oliveira, Gil Melo, Lara Carvalho, Leonor Miroto