Entre concertos e resíduos: o desafio da restauração do Rock in Rio Lisboa para reduzir o desperdício

No Rock in Rio Lisboa, a sustentabilidade deixou de ser apenas uma meta ambiental e passou a desafiar a logística da restauração. Durante os dias de concertos no Parque Tejo, dezenas de operadores procuram reduzir o desperdício alimentar através de novas ementas, controlo de stock e redistribuição de sobras alimentares, numa tentativa de alinhar a oferta do festival com as exigências de um público cada vez mais ambientalmente consciente.

A oferta alimentar no Rock in Rio Lisboa tem vindo a alterar-se na última década para acomodar novas exigências do público. De acordo com os operadores presentes no Parque Tejo, a transição para ementas de base vegetal decorre em paralelo com a exigência de gerir as toneladas de resíduos produzidos ao longo de cada jornada de concertos.

A diversificação de ementas é apontada como a principal alteração de mercado. No stand Veggie Lovers, o responsável, Nuno Faria, destaca que a procura por opções que não sejam de origem animal deixou de estar circunscrita a intolerâncias alimentares, motivando a expansão anual da oferta e a criação de novas receitas, como o hambúrguer de espirulina, espinafres e feijão branco. O mesmo princípio de adaptação é descrito por Laurent Hirsh no Pop Bar, onde a disponibilização de bebidas sem açúcar e alternativas veganas visam captar diferentes perfis de consumidores, beneficiando da adesão provocada pelo design de apresentação do espaço.

Stand Veggie Lovers no festival

No plano operacional, a gestão do produto de escoamento divide os balcões entre métodos de conservação e métodos de redistribuição. Enquanto que nos estabelecimentos Cachorro à Portuguesa e  Pop bar recorrem à refrigeração de stock para libertar apenas as doses pedidas no momento, eliminando as sobras alimentares de fim de noite, as bancas de saída rápida gerem as sobras de forma diferente. Catarina Maria, do stand Tradicional Alentejo, destaca que as mesmas são distribuídas pela sua equipa e pelos trabalhadores dos outros stands; já na banca de Veggie Lovers, a sobra de perecíveis é recolhida pela organização da Refood.

A análise à restauração da Cidade do Rock expõe, contudo, uma assimetria entre as metas de descarbonização do evento e a oferta instalada: entre cerca de 34 concessionários, os espaços de exclusividade 100% vegetal são limitados. Em cada local de restauração é feito a gestão de sobras, ou do stand, de uma maneira diferente. Num parque desenhado para receber milhares de visitantes diariamente, esta desproporção cria um desafio logístico que aumenta as deslocações do público e os tempos de espera.

O Rock in Rio Lisboa 2026 demonstra que a sustentabilidade na restauração, no meio de um evento tão grande, é um desafio complexo, entre inovação, logística e consciência coletiva, ainda existe uma descoordenação no espaço. O festival prova que é possível ser sustentável na área de restauração de um evento tão grande, no entanto, há ainda muito a melhorar.

Catarina Faneca, Isabela Astorga, Maria Salomé Patiño, Tiago Duarte