Juntar dezenas de pessoas num recinto para ouvir música gera, inevitavelmente, um pico de consumo de embalagens e resíduos. Contudo, para as entidades gestoras deste tipo de produtos, essa mesma multidão representa uma oportunidade de contacto direto. No Rock in Rio Lisboa, a consciencialização ao público não é apenas feita através de cartazes estáticos: faz-se através de jogos, de diálogo humano e de intervenções artísticas, numa tentativa de fazer com que o gesto de separar o lixo no recinto se prolongue para a rotina doméstica.
Do lado da Sociedade Ponto Verde, a tática de abordagem divide-se entre a atração no balcão e a mobilidade no terreno. Ricardo Lagoa, responsável pelo Marketing e Comunicação da entidade, explica que o festival conta com uma equipa de mochileiros a circular pelo parque com ecopontos ambulantes às costas, cuja missão principal não é apenas recolher, mas sim abordar os visitantes, esclarecer dúvidas e motivar à separação correta. Em paralelo, o stand da marca aposta na recompensa instantânea através de um jogo que cruza música e embalagens, oferecendo como prémio principal uma viagem ao Rock in Rio Brasil. O responsável assume o pragmatismo da ação, embora muitos participantes sejam inicialmente atraídos pelo brinde, o objetivo final é captar a sua atenção momentânea para que saiam do espaço com mais conhecimentos sobre as regras de triagem. O modelo de literacia assente na recompensa suscita, contudo, interrogações sobre a longevidade da mensagem transmitida. Ao ancorar a prática de triagem à expectativa de um ganho imediato, como a oferta de brindes, a estratégia arrisca colocar o foco do visitante no prémio em detrimento do compromisso cívico. Esgotado o estímulo lúdico do festival, coloca-se a questão de saber se o comportamento condicionado pelas atrações das bancas sobrevive à passagem pelos portões de saída, ou se a separação de resíduos regride mal desaparece o incentivo.
Já a Valorsul, foca-se na presença do impacto visual, alicerçada no conceito criativo “Juntos fazemos o impossível”. Marisa Nobre, Diretora de Comunicação da empresa, descreve a parceria estabelecida com estudantes e designers do Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing (IADE), através da qual foram desafiados a transformar os contentores de triagem em peças de arte urbana. Ao decorar os ecopontos com referências visuais da música, da reciclagem e dos municípios de Lisboa e de Loures, a marca pretende quebrar a invisibilidade do caixote do lixo, despertando a curiosidade do utente para garantir a colocação correta do resíduo. A operação tem ainda uma segunda vida planeada, após o fecho das portas, estes contentores artísticos serão redistribuídos pelo espaço público nas ruas de Lisboa, homenageada nos dias 20 e 21, e de Loures, nos dias 27 e 28 de junho, estendendo a literacia do evento às comunidades. A estratégia visual suscita uma dúvida prática sobre a composição dos suportes da campanha. A transformação dos contentores em telas de arte urbana exige a aplicação de elementos cuja natureza raras vezes é inofensiva para o planeta. Fica, assim, exposto um paradoxo onde a urgência de embelezar o ecoponto para captar a atenção do público arrisca assentar na utilização de compostos sintéticos que deixam no ar questões sobre se as ferramentas usadas para ensinar a reciclar são, elas próprias, amigas do ambiente.
A estratégia conjunta destas entidades demonstra que a sustentabilidade em grandes eventos evoluiu para um exercício de atração e proximidade, movida por ambição tática, mas ainda a debater-se com as suas contradições. Assumindo que a consciencialização estrutural a longo prazo exige um trabalho de base, os promotores utilizam o encanto do festival para estimular um impacto pedagógico de curto prazo. Resta saber se, após o festival, o visitante fará o gesto de reciclagem com dedicação idêntica àquela com que guarda os brindes na mochila.
