“La primabera ye linda”: Porque a sustentabilidade também se escreve em Mirandês

No coração do Nordeste Transmontano, o silêncio está a ganhar terreno. Entre as casas de pedra e os lameiros de Miranda do Douro, a desertificação não leva apenas as pessoas, leva as palavras. O eco dos relevos acidentados, que moldam a serenidade desta paisagem, tem vindo a ser silenciado com a perda de uma voz, a lhéngua (língua) mirandesa, que desaparece em contraponto com a globalização.

Geograficamente isolado do resto do país, o planalto mirandês foi moldado pelo povo. Sempre se fez ouvir. Por entre o tilintar dos chocalhos do gado, o ronco das gaitas de foles, o bater dos pauliteiros, nasceu uma  própria identidade auto suficiente. Enraizou-se uma voz singular herdada do asturo-leonês, o mirandês, que se fixou em quem cavava a terra e mantém-se por quem agora escolhe resistir à padronização e ao êxodo rural.

Albertina São Pedro, a primeira adulta certificada com o nono ano em mirandês, recorda os tempos em que a língua não era um “património”, mas a vida normal. “Aprendi mirandês desde que nasci, foi a minha língua mãe”, conta com uma ponta de mágoa. A proibição do uso da língua nas escolas, para dar prioridade ao português dos exames, foi o início de um divórcio forçado entre o povo e a sua expressão mais autêntica. 

Perder esta língua é perder o “manual de instruções” do território. O mirandês é uma língua técnica do ambiente; as suas palavras descrevem ciclos da natureza, tipos de pasto e comportamentos das raças autóctones que o português comum não alcança com a mesma precisão. Quando o vocabulário morre, a relação com a natureza torna-se mais pobre, mais genérica e menos sustentável. 

Em contraciclo, há quem escolha resistir ao consumo rápido da “sociedade de massa”. A resistência vê-se no ensino do mirandês, que se mantém nas escolas desde 2009, e em passos concretos como a inauguração do Centro de Valorização e Melhoramento das Raças Autóctones (CVMRA), em 2025. São esforços para provar que o interior não é um museu, mas um lugar vivo que se reinventa através dos seus recursos endógenos. 

“Queria realmente que os jovens viessem para aqui e se fossem integrando na língua e no local”, afirma Albertina, que continua a cultivar aveia e a criar as suas vacas mirandesas. Para ela, o gado e a língua são a mesma coisa: herança. “Gostava que houvesse quem desse seguimento ao que eu e o meu marido temos”, confessa. O modelo de produção da raça mirandesa, adaptado às condições do planalto, é o exemplo perfeito de economia circular e respeito pelo ritmo natural.

Excerto do Livro de Albertina São Pedro

Entre pessoas, burros e caminhos de terra, contruiu-se um laço que ainda hoje habita a memória do Planalto mirandês

Nestas casas agrícolas a presença de outros animais, como os burros mirandeses, era também comum. “Tínhamos uma burra para andar com ela , na altura não havia carros nem tratores então toda a gente ia de burra para os sítios”. A continuidade destas práticas revela-se essencial para um modelo de desenvolvimento sustentável no interior, criam e dependem de uma circularidade entre uma comunidade que produz, valoriza o produto e fomenta diretamente a cultura, respeitando acima de tudo o ritmo da natureza. 

É um contraste violento com o “Viver em contrarrelógio” da sociedade atual, onde os jovens , como o próprio filho de Albertina, percebem o mirandês, mas já não o falam por falta de uso no quotidiano tecnológico e urbano. A facilidade e o consumo imediato tornam estes costumes mais raros e difíceis de manter.

A filósofa Hannah Arendt avisou que a “sociedade de massa” não quer cultura, quer entretenimento. O risco que o Planalto Mirandês corre é o de se tornar um cenário postal para turistas, enquanto a sua alma,  a língua e o saber agrícola se extingue. A sustentabilidade desta região depende de voltarmos a dar utilidade às palavras. Como diz Albertina ao olhar para o seu gado: “La primabera ye linda, stá todo floridico, i siento ua alegrie a eir para l miu stablo”. Nesta frase cabe um mundo inteiro. Se deixarmos de a saber dizer, talvez deixemos também de saber como cuidar da terra que a inspirou.

Senhor Manuel, guardião da história de um planalto que continua a resistir

 

Luis Martins