O Cenário: Introdução geológica
Situada em Cascais, no sopé da Serra de Sintra, a Quinta do Pisão é um laboratório vivo. Geologicamente, a zona insere-se no Complexo Vulcânico de Lisboa, apresentando solos predominantemente calcários e basálticos. Este contexto geológico molda a paisagem e a vegetação onde a biodiversidade é gerida de forma sustentável.
Um Ícone em Cascais: A espécie
O Burro de Miranda (Equus asinus) não é apenas um animal de carga do passado. Trata-se de uma raça autóctone (animais que se desenvolveram naturalmente numa região, adaptando-se ao seu clima e solo). Originários de Trás-os-Montes, estes animais distinguem-se pelo seu “hirsutismo” (pelagem comprida e grossa de tom castanho-escuro) e pelas suas orelhas grandes com “borlas” de pelo na ponta.
Na Quinta do Pisão, a presença destes animais resulta de uma parceria estratégica para a valorização da raça.
“A presença de Burros de Miranda na Quinta do Pisão é também uma forma de aproximar os cidadãos urbanos da conservação de raças autóctones, reforçando o seu valor cultural e ambiental.”, afirma a AEPGA.
Em 2025, esta exploração foi mesmo premiada pela AEPGA (Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino) como a melhor do país para esta raça.
Papel no Ecossistema
Para a Biologia, o burro é muito mais do que um habitante da quinta, ele é um “agente estruturante do equilíbrio dinâmico do ecossistema”. Através do pastoreio extensivo, o Burro de Miranda impede a progressão descontrolada de matos, preservando habitats abertos que beneficiam outras espécies. O seu estrume atua ainda como fertilizante orgânico, enriquecendo o solo e atraindo insetos que, por sua vez, sustentam uma cadeia alimentar mais rica.
A interação da espécie com o ecossistema é estratégica. Segundo os técnicos da Quinta, o burro é um “sapador de grande porte”.
“Ao contrário das intervenções mecânicas e manuais pontuais, a ação dos burros é constante, assegurando uma manutenção permanente do território”, explicam os trabalhadores da AEPGA.
Este pastoreio cria descontinuidades horizontais, que funcionam como barreiras naturais ao avanço das chamas, especialmente em zonas de difícil acesso onde as máquinas não chegam. Além disso, o seu comportamento alimentar é seletivo: não removem as plantas pela raiz, o que favorece a sua regeneração natural e aumenta a diversidade de espécies herbáceas.

A reportagem apurou que manter este equilíbrio exige rigor. O Burro de Miranda é um animal rústico, mas com um caráter estoico, o que significa que esconde sinais de dor.
“Isto exige uma observação atenta. Sinais como orelhas baixas, isolamento ou perda de apetite são alertas críticos”, explica um responsável.
O plano de saúde na Quinta inclui escovagem diária (fundamental para a inspeção da pele), limpeza de cascos e revisões dentárias frequentes, garantindo que os animais desempenham a sua função ambiental com o máximo bem-estar.
A Voz de Quem Cuida: “Eles vêm ter connosco”
Para além da sua função ecológica, o Burro de Miranda destaca-se pelo seu comportamento. No terreno, pudemos observar a forte ligação entre os animais e quem deles cuida.
“O Burro de Miranda é um animal extremamente dócil e curioso. Ao contrário do que muitos pensam, eles não são teimosos, são inteligentes. Mal entramos no parque, eles sentem a nossa presença e vêm logo ao nosso encontro. Não vêm por medo ou por comida, vêm por curiosidade e para interagir.”, afirma um técnico da Quinta.
Esta característica torna-os ideais para a asinoterapia e educação ambiental, transformando um animal de carga num companheiro de terapia.
O Futuro da Raça
Apesar do trabalho realizado em Cascais, o Burro de Miranda continua a ser uma raça em risco de extinção. A mecanização da agricultura no século XX levou ao abandono da raça. Projetos como o da Quinta do Pisão, premiado em 2025 pela AEPGA, são vitais para evitar a extinção.
A presença destes, em Cascais, é descrita pela equipa como uma forma de:
“aproximar os cidadãos urbanos da conservação de raças autóctones, reforçando o seu valor cultural e ambiental.”, diz Bárbara Madeira da Cascais Ambiente.
Visitar a Quinta do Pisão é, por isso, uma oportunidade de ver a Biologia em ação: uma espécie que, ao ser protegida, acaba por proteger todo o ecossistema à sua volta.

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